Apresentação em Tempos de Internet
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Há alguns poucos anos atrás a elaboração de um layout era uma atividade bem diferente da exercida hoje pelo profissional de criação.
O layout pra começar tinha mais tempo para ser feito. No meu caso, eles saiam em uma semana e esse prazo era muito bom pela qualidade do trabalho, que ainda envolvia o redator e o diretor de criação.
Pelo fato de eu gostar muito de ilustração mas não ter a paciência - requisito básico - para isso, fazia layouts bem ilustrados.
Valia tudo para simular a peça já pronta. De aerografia com tinta acrílica até caneta esferográfica (a boa e velha BIC preta dava uns realces maravilhosos).
E a técnica então era a mais mista possível.
Os textos eram marcados com gouache Talens com pincéis de pelo de marta e cabo de mogno. As chamadas principais eram escritas, já o texto era apenas marcado com as letras “O” e “N” repetindo-se aleatóriamente para simular as palavras. Isso era pra não colocar letras que combinadas ao acaso pudessem formar algum palavrão, sem querer.
Depois da “mancha” - como era chamado o layout - ficar pronta, dava-se uma camada de verniz da Acrilex e eu o montava com cola de benzina (aquela de sapateiro) numa prancha de papel paraná bem espesso que já era coberto por um Colorplus preto, para criar uma moldura de uns três centímetros. Isso valorizava ainda mais a arte.
Quando a “prancha” estava pronta, colava-se um papel manteiga sobre a arte - o overlay - que era para o cliente ou o atendimento fazerem marcações.
Um bom envelope de papel triplex colado com fita crepe mesmo servia para instigar ainda mais a curiosidade do cliente quanto ao layout.
Impressionava
O fato é que o layout chegava a ficar tão parecido com uma arte impressionista que o cliente adorava. E chegava a ficar frustrado com o trabalho final impresso com fotografia, textos feitos em PMT etc.
Pensávamos na satisfação que o contato da agência teria ao apresentar o layout ao cliente. Coisa que tinha que ser quase um ritual, com marcação de reunião, chegada com o envelope grande e branco, uma conversa de amenidades antes, a retirada do layout do envelope e o levantamento do overlay descortinando uma obra de arte…(me empolguei)…
Tudo isso servia para mostrar ao cliente várias coisas, entre elas o nível dos profissionais da agência e o trabalho que se havia destinado ao produto ou serviço do cliente, pois até o logotipo dele era feito com gouache e depois envernizado.
Depois de aprovado, entrava o trabalho de finalização, que envolvia fotógrafo, o pessoal da “arte final”, que fazia past-ups (colagem de textos) e do produtor gráfico que fazia marcações de cores suas porcentagens no overlay da “arte final”.
O perfil do profissional é outro
Hoje o layout sai em um dia. E quando o cliente aprova é só mandar para o fornecedor por e-mail.
Se o arquivo digital ficar muito pesado você coloca no FTP do fornecedor e pronto.
Criação e finalização andam juntas, pois os layouts são feitos com imagens “royalte free” e quando o cliente aprova o layout é só fazer a compra da imagem, substituir e mandar pro fotolito.
O perfil do profissional de criação também mudou. Hoje ele não pode ser especialista em uma única tarefa. Ele tem que dominar - mesmo que parcialmente - todos as etapas do trabalho, da criação até a produção gráfica, passando por soluções para fazer com que sua arte chegue até o cliente com o mínimo de ruído possível.
É necessário que ele saiba buscar referências na internet, saiba adquirir imagens de bancos de imagens royalte free, tratar as imagens, saber a resolução mais adequada para essa aquisição, conhecer a internet e direito autoral, saber das distorções que podem ocorrer em navegadores e programas de envio e recebimento de e-mails, enfim, tem que ser um profissional atualizado.
Ganhamos em tempo, perdemos em relacionamento e calor humano.
A apresentação de um layout, que antes era algo pessoal e caloroso passou a ser feito por e-mail.
Aí muda-se a forma de apresentar os trabalhos. O cliente muitas vezes não compreende as dobras do material, ou não identifica a frente ou o verso…
Nesse momento entra o que eu chamo de “valorização gráfica”. O que nada mais é do que simular através de sombras, volumes e texturas o material final.
E aí entra um conhecimento de ilustração e do Photoshop (programa de tratamento de imagens).
Os trabalhos que são desenvolvidos no Ilustrator, Corel Draw ou In Design são passíveis de serem exportados em JPG em RGB e em seu tamanho natural, numa definição não muito alta, para o arquivo de apresentação não pesar muito.
No Photoshop, usando-se de transparências, sombras, brilhos e reflexos a arte (plana) é valorizada, simulando o produto final, ficando bem perto da realidade.
É lógico que uma série de fatores podem influenciar a apresentação pelo cliente, uma delas é a calibração do monitor em que ela será visualizada. Ele pode estar mais claro ou mais escuro, com brilho acentuado, enfim…vários fatores.
Por outro lado, esta “valorização” - que deve ser enviada juntamente com o material planificado - retoma uma parte do ritual da apresentação pessoal.
Existem programas de 3D que simulam embalagens e qualquer outro tipo de material. Mas nesse caso, nos restringimos apenas ao programa de editoração e ao Photoshop.
Um exemplo
Abaixo, segue o exemplo de uma embalagem para Biscoito da Sorte.
O trabalho gráfico, baseado na técnica sumie e restrito pelo processo de impressão (Flexografia) é simples e provavelmente não empolgaria o cliente. Porém, a valorização gráfica, mostra o produto acabado…quase pronto para o consumo.
Para se chegar a esse resultado, utilizei o projeto gráfico feito no Ilustrator, exportei-o em JPG, 200 dpis, RGB. Depois abri no Photoshop e trabalhei várias camadas com sombras e brilhos simulando um “drapeado” (o amassadinho). A ferramenta “Deformar” do Photoshop CS ajudou a dar a forma de travesseiro à embalagem e a sombra em arco à direita dá a noção da altura.
Note que o fundo tem as tonalidades do logotipo do cliente propositadamente para tornar o conjunto atrativo.
Até a data de validade e o lote foram simulados com uma fonte própria desta operação.
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